Pensamento Social Brasileiro

Debatedor: André Botelho

 

 

A luta de Paulo Freire contra o fatalismo: a educação para a ação histórica

Eduardo Dullo

 

Paulo Freire (1921-1997) destacou-se como um dos principais educadores brasileiros do século XX, conhecido e respeitado em diversos países do mundo pelas suas idéias e práticas públicas. Dentre a sua extensa obra, iniciada com sua tese Educação e Atualidade Brasileira (1959), a Pedagogia do Oprimido (1968) ocupa um lugar central. A proposta desta comunicação é analisar a luta de Paulo Freire contra o fatalismo, empreendida tanto no nível das idéias quanto na preocupação com práticas educativas correspondentes. O fatalismo, para ele, era conseqüência da nossa história autoritária, de uma interpretação equivocada do catolicismo, uma história das elites, sem ‘povo’. Assim, a partir de autores como Gilberto Freyre (seu contemporâneo no Recife), Oliveira Vianna, os intelectuais do I.S.E.B. e fontes jesuíticas, Freire formula uma interpretação do Brasil na qual a sua história é concebida como impeditiva para o seu pleno desenvolvimento. Inserido na militância católica do período (anterior e coetâneo ao Concílio Vaticano II) sua luta pode ser analisada como a busca por uma sociedade mais justa, em que pese, assim, a formação de um ‘povo’, isto é, a transformação das ‘disposições mentais’ de cada sujeito a ponto deles tornarem-se adequados à vida em uma sociedade democrática: serem flexíveis, críticos, autênticos e responsáveis pelos seus atos e pela sua presença na História.

 

Quem é o povo? A interpretação de Comício para seus leitores

Samantha Gaspar

O semanário Comício foi fundado por Rubem Braga, Joel Silveira e Rafael Corrêa de Oliveira e circulou em 1952. Entre os colaboradores estavam nomes como Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Carlos Castello Branco, Clarice Lispector e Millôr Fernandes.
Um assunto recorrente em Comício é o que diz respeito à classe trabalhadora e ao “povo”. São inúmeras as reportagens que apresentam o universo do trabalhador ao leitor, denotando certo estranhamento entre aquele e o suposto receptor de Comício. Trata-se, portanto, de um grupo de intelectuais que, por meio de tais produções, colocavam-se como intérpretes de um outro Brasil, mais distante do cotidiano dos possíveis receptores do semanário, que seriam integrantes de uma parcela mais bem remunerada e escolarizada da sociedade.
Para entender a relação de mediação desenvolvida por Comício, analiso partes distintas do semanário. De um lado, para mapear o imaginário construído a respeito dos trabalhadores, debruço-me sobre as reportagens nas quais a vida do “povo” é retratada. Por outro, para entender o público visado pelo semanário e parte da recepção obtida, analiso os anúncios presentes e as cartas enviadas para a seção “O leitor escreve”.

 

Rei da Vela: alegoria de uma desconstrução

Bruna Della Torre de Carvalho Lima
 

Este artigo visa construir uma interpretação em torno da obra “O Rei da Vela” de Oswald de Andrade tendo em vista a crítica ao capitalismo brasileiro nela presente. Para Oswald, o brasileiro representa uma civilização que não tem. “O Rei da Vela” foi escrito em 1933, mas só é publicado em 1937 pela Editora José Olympio. Não havia como encená-la sob a censura do Estado Novo e, além do mais, o teatro local era ainda amador. Tanto o grupo teatral de Décio de Almeida Prado, quanto Procópio Ferreira recusam-se a encená-la.  É apenas em 1968 que a peça é encenada pelo Teatro Oficina sob a direção de José Celso Martinez Correa, para sofrer em pouco tempo a interdição oficial da ditadura militar.
O objetivo é, então, considerar este hiato entre a produção e a recepção da obra – talvez, a mais famosa deste enfant terrible, poeta modernista e autor libertário que é Oswald de Andrade – em articulação com as questões apresentadas nesta obra e seus procedimentos de construção, inseparáveis, salvo engano, de seu enorme potencial polêmico e crítico.

 

Roger Bastide e as representações coletivas sobre o preconceito de cor no Brasil

Maria José Campos

 

O interesse de Roger Bastide pela presença da cultura africana no Brasil marcou de maneira definitiva o pensamento do autor francês, que residiu no Brasil de 1938 a 1954, contratado pelo governo paulista para integrar o corpo docente da Universidade de São Paulo. A proposta desta exposição é analisar os possíveis antecedentes teóricos e metodológicos presentes em sua obra que deram suporte à crítica contida no livro Relações entre Negros e Brancos em São Paulo (1955), publicada em parceria com Florestan Fernandes, que se tornou um dos clássicos sobre a questão racial no País. Busca-se mostrar que o acompanhamento das pesquisas iniciais de Bastide sobre as relações entre arte/literatura, religião e sociologia, entrecruzadas com os estudos das produções culturais afro-brasileiras, permite recuperar algumas premissas teóricas que o levaram a reavaliar a condição social dos negros brasileiros.